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quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza/La Mujer Rubia)

Diretor: Lucrecia Martel

Elenco: Inés Efron, María Vaner, María Onetto, Claudia Cantero, Pía Uribelarrea, Daniel Genoud, César Bordón

Gênero: Drama

Ano: 2008









A cineasta argentina Lucrecia Martel se consolida num cenário mundial cinematográfico com uma identidade própria e um modo peculiar de narrar uma história, não à toa seus filmes tem chamado a atenção de críticos e personalidades de peso como Pedro Almodóvar.

O título surrealista deste filme acompanha um roteiro que nos absorve no universo em suspensão de Veronica, uma dentista de meia idade que após um momento de distração numa rodovia se consome pela dúvida e a culpa por ter atropelado algo ou alguém.

Passado o incidente a protagonista silenciosamente mergulha num estado de inação que incrivelmente se passa desapercebido por todos ao seu redor que continuam a tratá-la como se ela estivesse efetivamente “presente” .

A perda da identidade de Veronica é tão perturbadora quanto os enquadramentos, imagens desfocadas e figuras de linguagem utilizadas por Lucrecia Martel. A crise de consciência resultado de um possível, porém improvável, caso de assassinato e omissão retira de Vero (apelido da personagem) a sua auto-confiança, também abalada por não lhe darem a devida credibilidade que acredita merecer ao declarar aos mais próximos ter cometido um crime.

Ignorada e desacreditada Vero através de seus contatos parte em busca de informações sobre o incidente e nada descobre, o que pode significar sua inocência é o suficiente para lhe motivar a retomar o controle de sua rotina e vida.

A Mulher Sem Cabeça não resolve propositadamente todos seus conflitos e mistérios e nos faz sentir na pele da personagem, o que ocorre por estarmos tão envolvidos pela dúvida e falta de clareza do fatídico evento que apresenta tantos elementos que podem significar inocência ou culpa e culminam num descontrole emocional que ultrapassa uma culpa concreta.

A classe média argentina perde a sua cabeça e você também.


Pontos Altos: Enquadramentos, figuras de linguagem, identidade em crise, não há redenção

Pontos Baixos: Coadjuvantes desconexos

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

XXY

Diretor: Lucía Puenzo
Elenco: Inés Efron, Martín Piroyansky, Carolina Pelleritti, Germán Palacios, Valeria Bertuccelli, Ricardo Darín, Guillermo Angelelli
Gênero: Drama
Ano: 2007






Síndrome de Klinefelter ou XXY pra quem se lembra das aulas do colégio é a disfunção genética que afeta os indivíduos do sexo masculino com um cromossomo X a mais. O que traz certos problemas hormonais e/ou reprodutivos para o homem portador além de desenvolvimento das mamas em uma pequena parcela dos afetados.
O filme de Lucía Puenzo se apropria indevidamente do conceito em seu título, pois o caso que é retratado na película é o hermafroditismo de Alex, uma garota de 15 anos cheia de dúvidas e descobertas como os jovens de sua idade.
Ao mesmo tempo em que se sente incomodada e com vergonha do próprio corpo a rebeldia adolescente se manifesta e a obrigação do consumo de medicações que mantém um fenótipo aparente feminino se torna uma dúvida.
Ricardo Darín interpreta o amoroso e austero pai de Alex que fugiu com sua família para o Uruguai para evitar que sua filha fosse operada quando recém-nascida, além de fugir dos olhares curiosos em Buenos Aires. Mas o tema volta a bater em sua porta quando sua esposa convida um casal de amigos e seu filho para visitá-los em sua casa a beira mar.
A confusa mãe não pensava em uma simples visita, pois o marido de sua amiga é na realidade um conceituado cirurgião plástico apto a realizar o procedimento que definiria a genitália ambivalente de sua filha.
Enquanto um conflito entre os adultos ocorre a jovem Alex se interessa por Álvaro que aos poucos se envolve pela garota e se apaixona apesar do hermafroditismo.
O romance desencadeia a descoberta sexual de Alex que não sabe mais se quer se definir como mulher ou homem e após uma série problemas pode-se notar que ela possui apoio e compreensão total dos pais talvez por sentirem-se culpados ou pelo amor que evidentemente sentem.
Lucía Puenzo escolhe retratar o hermafroditismo de forma natural tal qual acontece em alguns seres vivos da natureza, o seu mérito é engrandecido pela interpretação de Inés Efron que não nos deixa esquecer que estamos vendo apenas uma adolescente, Martín Piroyansky que interpreta o garoto Álvaro é outro grande ator que deve ser acompanhado.
A escolha da naturalização do tema esbarra na relação sem intimidade, carinho ou até mesmo diálogos da família convencional que convive por alguns dias na casa de Alex, a artificialidade exacerbada que espera produzir uma reflexão entre os modelos familiares não possui um resultado crível o que prejudica o desenvolvimento da história de forma sensível.
XXY demonstra como o cinema argentino além de mais emocional não sofre da mesma crise criativa da indústria cinematográfica brasileira.


Pontos Altos: Interpretações dos jovens, Ricardo Darín, tema pouco discutido
Pontos Baixos: Cena do pai na praia com o filho, título do filme equivocado